Deus não está de quarentena por Kelps Lima

DEUS NÃO ESTÁ DE QUARENTENA por Kelps Lima

Queria fazer um pedido a você, um pouquinho da sua paciência para ler esse milagre que aconteceu na minha vida.

Espero que vocês não fiquem chateados por estar usando este espaço para falar de algo tão pessoal. Mas não posso deixar de dividir com as pessoas a gigantesca lição de vida que recebi.

Ontem foi um dos dias mais impactantes da minha vida e queria dividir essa história com vocês. Poucos me ouvem falar sobre o meu pai. Na verdade, nunca falei sobre este tema, desta forma, com ninguém.

Desde pequeno meu pai foi meu grande ídolo, minha referência, meu farol. Eu tentava o imitar em tudo, no jeito de falar, na forma de escrever, nas músicas que ouvia, até nos times de futebol que torcia (isso explica um pouco o fato de eu torcer pelo Botafogo e Alecrim…).

Em um determinado momento na vida do meu pai se deixou consumir pelo alcoolismo, uma doença perigosa, grave e que afeta a vítima e maltrata toda a família.

O alcoolismo levou meu pai a um processo de autodestruição. Perdeu o emprego, os amigos e passou a tratar mal a minha mãe, minhas irmãs e mim.

Nos unimos para tentar resgatá-lo, em meio a uma enorme crise dentro de casa, sob todos os aspectos. Parecia que o “inferno” tinha mudado de endereço e se instalado no centro da nossa casa. Quanto maior a crise material, mas meu pai se revoltava e tentava se afastar da família. Não vou entrar em detalhes, pois é duro até de lembrar. Tentamos de tudo, tudo que se pode imaginar em tratamento, conversas, montagens de pequenos negócios, mas ele não queria, ou o alcoolismo não deixava. Essa fase durou pelo menos uns 15 anos. Um verdadeiro filme de terror. Até um momento em que não foi mais possível evitar um ruptura.

Eu e minhas duas irmãs mais velhas já casadas e com somente meu pai, minha mãe e minha irmã mais nova morando juntas. Tivemos que tirar nossa mãe de casa e eles se separaram.

Nos parecia que meu pai tinha desistido da vida. Decidiu morrer e acordava para beber e bebia até dormir. Eu não aguentei, parei de ver e falar com meu pai. Não sei se por covardia ou para preservar o amor que ainda sentia por ele. Não queria vê-lo mais assim. Ele desempregado e eu fiquei apenas com as obrigações financeiras, pagar o plano de saúde e suas despesas pessoais. Minha mãe, uma heroína, e minhas irmãs levavam a alimentação e observavam o homem mais inteligente que eu vi nessa vida, ir derretendo, se auto-destruindo.

Nos últimos anos aconteceu o óbvio, meu pai começou a adoecer. O seu corpo não estava mais aguentando suas agressões. Como tive o cuidado de sempre manter um plano de saúde, ele pelo menos, teve uma excelente assistência médica.

Veio então um câncer na garganta, pois meu pai além de beber, fumava muito. Começou um tratamento pesado e aqui queria fazer um parênteses para falar sobre a Liga de Apoio a Pessoa com Câncer. Que instituição sensacional. Nunca fui lá pedir para meu pai furar fila, dizer que sou deputado. Os médicos provavelmente até hoje não sabem de quem ele é filho. Eu não queria nenhuma vantagem para meu pai, como nunca quis para parente nenhum meu pelo fato de eu ter um mandato. Meu pai tem plano de saúde e isso foi fundamental, mas sem a Liga, o tratamento não seria igual.

Pois bem, no primeiro semestre de 2019 o câncer avançou, eu pai quase não conseguia mais falar, os médicos diziam que nem cirurgia poderia salvá-lo e, talvez para prolongar sua vida, fosse necessário cortar sua língua. Chamei um grande amigo, meu grande irmão de vida para nos ajudar neste momento, o médico Alderley Torres de Medeiros (não vou citar os nomes dos demais médicos que trataram meu pai, pois não sei se eles gostaria de ser citados publicamente) para acompanhá-lo nessa fase final, mesmo não sendo especialista na área. Queria o conselho de um amigo médico, alguém que frequentou minha casa no antes e depois do alcoolismo do meu pai.

Alderley me disse, e pediu para eu não dizer nem a meu pai nem a minha mãe, mas na medicina não tinha mais o que fazer, somente atenuar a dor e esperar a hora da partida. Conseguimos convencer a meu pai a vir morar conosco. Resolvemos aplicar uma dose de amor profunda no meu pai e, dessa vez, esse resolveu aceitar. Minha mãe, que também não falava com meu pai a anos, lhe passou a ter como vizinho (moramos todos no mesmo prédio).

Naturalmente, sendo melhor alimentado, com a família próxima e passando a conviver com os netos, foi melhorando aos poucos. Mas sabíamos da gravidade da doença e do que foi nos passado pelo excelentes médicos que lhe acompanharam. Mas a cada dia ele estava um pouco melhor. Este ano, após mais de 15 anos, juntamos a família inteira no dia do meu aniversário, 16 de março, para cantar os parabéns, inclusive com a presença do nosso querido Alderley.

Hoje minha mãe pediu para eu ir no apartamento dela, quando cheguei lá ela me mostrou uma mensagem que recebeu do médico especialista que acompanha meu pai, que chegou às 5 da manhã. Dizia que meu pai estava curado, que a medicina não tinha como explicar, mas ele não tinha mais câncer. Claro que meu pai ainda está muito debilitado, ele maltratou muito o corpo estes anos todos, mas ele não tem mais câncer.

Liguei na hora para Alderley e ele, que me conhece desde menino, chorou ao telefone e disse: “a amor da família salvou seu Pai”.

Nestes dias tristes e nebulosos que o mundo está passando, com muitas incertezas e medo para milhares de famílias no mundo, acho que vale a pena dizer: “o amor da família é o milagre que precisamos, vamos nos manter unidos, ajudarmos a todos que podemos, termos todos os cuidados médicos que forem possíveis. Foi isso que salvou meu pai, a medicina, o tratamento e o amor e união da sua família”.

Hoje é 03/04/2020, aniversário do meu pai, Binho, que completou 68 anos de vida.

Obrigado por tudo meu Deus, me desculpe por ter duvidado de você no meu maior momento de angústia e dor. Naquele dia que sentei na varanda da casa do meu pai e lhe perguntei o porquê de tanta provação. Obrigado pela lição, obrigado por salvar meu pai.

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